terça-feira, janeiro 09, 2007

Maré Baixa na Praia de Ngapali



Agora não é hora de movimento, e a praia parece deserta, mas esta é a grande artéria de passagem em Ngapali. Trânsito permanente de pessoas e, até por vezes, animais. Gente com cargas à cabeça, sobretudo mulheres e jovens. Os homens carregando grandes troncos para cortar para lenha e fazer lume junto aos barcos, que a vida começa logo no fim da tarde, para que ao sol posto já esteja tudo na faina do mar. Vida simples e muito dura porque as comodidades são inexistentes. Nós os turistas estamos para eles do outro lado do aquário.

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Culturas de alho perto de Kakku



Regar culturas à mão desta maneira, já não existe em lado algum, excepto nesta região perto de Kakku, um lugar onde também ainda não chegou o plástico, e onde se encontra um maravilhoso e intacto pagode com mais de duas mil stupas, um local remoto e sem ninguém. Para lá chegar são quatro horas de carro desde o lago Inlé, numa estrada muito estreita e de mau piso como todas as estradas da Birmânia.

Passamos por Taunggyi (a antiga Hildebrand da colonização inglesa) onde recolhemos uma guia. Depois da pacificação do Shan State, o governo central obrigou-se a não deixar ninguém entrar na zona sem ser acompanhado por um guia nomeado pelo governo local. Cabe ao povo Pa-ho (ler Pôô), os habitantes originais de Kakku, essa tarefa. Vestem uns trajes únicos de fazenda grossa preta debruados a vermelho vivo. Muito ouro nas orelhas e pescoço. A nossa guia muito viva e atenta, falava inglês correctamente, e dizia ter uma licenciatura em física nuclear. E talvez porque tenha nascido no mesmo dia e ano da minha filha, simpatizámos logo com ela.

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Inle

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Angkor Vat

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Bagan

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Irrawaddy

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sexta-feira, dezembro 22, 2006

Mingalabah!

A Birmânia de hoje não é aparentemente muito diferente das descrições de Orwell. Estradas más, carros com mais de trinta anos, todos da mesma cor branca revelando a sua proveniência de velhos taxis japoneses, alguma motorizadas chinesas, muitas, muitas bicicletas, muita gente a pé, muita pobreza, mas sem qualquer miséria, sujidade ou sinais de fome. Uma religião omnipresente nos monges e nos templos que nos cercam por todo o lado para onde se olhe. Uma religião pacífica, mistura de budismo com animismo, que acredita que cada um tem o seu destino traçado. O paraíso dos astrólogos: o mundo gira à volta das lições do Buda e o espírito dos nats, que é por eles revelado. Um estado centralizador e autoritário onde é preciso licenças para tudo: para ter frigorífico ou ferro de engomar, ou rádio, ou gravador, ou mais de duas lâmpadas em casa, onde é necessária licença para viajar para outra província ou outra cidade, onde não existem absolutamente nenhuns cuidados de saúde, ou bancos, ou cartões de crédito, telemóveis ou Internet. Onde as escolas são todas públicas. Onde o direito à propriedade pode ser a qualquer momento revogado por qualquer obscuro interesse superior. Onde não existe qualquer reconhecimento de direitos da pessoa humana. Os militares estão por todo o lado, impecavelmente fardados ocupando os melhores lugares, as melhores casas, os jardins e campos de golfe mais bem tratados, e os melhores carros. Eles sim, podem comprar telemóvel no país onde o telemóvel custa mil dólares e o salário é de doze dólares por mês. Quase o paraíso cubano. A inflação é galopante mas ninguém parece saber que a inflação é obra do governo, julgam que é uma coisa estranha que aparece por acaso. A ignorância económica e política é total. Os jornais falam de futebol, e da paixão dos Birmaneses pelo Arsenal e Manchester United (Portugal? Cristiano Lonaldo very good player!), e de crime. Não é permitido falar ou escrever sobre quaisquer assuntos políticos.

O governo militar é financiado e apoiado pela China que está presente em todas as obras, todas as construções, todo o comércio. Na era do cimento, uma nova ponte de dois quilómetros sobre o rio Irawaddy em Mingun, está a ser concluída em ferro, como no século dezanove. O destino da Birmânia, é o de tornar-se uma colónia chinesa a médio prazo.



NB: Um interessante guia para a Birmânia (além do sempre útil Lonely Planet Myanmar/Burma, edição de 2005), e do Guide du Routard, foi o essencial Further India de Hugh Clifford (a minha edição é de White Lotus Co., Bangkok 1990, 378 páginas). Publicado pela primeira vez em 1904, o autor, acérrimo defensor do sistema colonial britânico, descreve de um modo isento para a época, a epopeia do desbravamento destes territórios por parte dos ocidentais, desde a chegada dos árabes, dos primeiros conquistadores portugueses como Albuquerque e outros (the Filibusters), dos primeiros exploradores com nomes que me eram totalmente desconhecidos como António de Faria, António de Miranda, Duarte Fernandes, Ruy de Araujo, Francisco Serrano, António de Abreu, Pedro Afonso de Loroso, e o conhecido Fernão Mendes Pinto, dos grandes exploradores franceses como Mouhot e o famoso Fancis Garnier a quem se atribui erradamente a descoberta dos templos de Angkor Vat, dos holandeses e finalmente dos inúmeros ingleses.

O termo de filibusteiros aplicado aos primeiros exploradores portugueses, tem a sua razão de ser pelo facto de serem, de todos os povos que exploraram o sueste asiático, os portugueses os únicos que construíram fortes, impuseram a sua religião, e comercializaram pela força. Até à chegada dos portugueses eram os árabes os únicos cuja influência se alastrava até ao oriente, e tinham como princípio nunca se imiscuir na politica local. O sucesso dos holandeses e ingleses que vieram depois de nós deveu-se simplesmente ao facto de só quererem o comércio, nunca as terras nem as almas das gentes. A colonização veio depois...

Essa perspectiva é para mim nova, nascido e criado no mundo paroquial da epopeia quinhentista da História de Portugal do Adolfo Simões Mueller. Fui pela primeira vez confrontado com essa realidade há poucos anos atrás em Goa, ao ler num jornal uma opinião crítica sobre Vasco da Gama que me atingiu profundamente, como se tratasse de uma ofensa pessoal.

De todos os modos um livro essencial sobre o Sudoeste Asiático.

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domingo, dezembro 17, 2006

Burmese Days

Foi o primeiro romance de George Orwell, e foi publicado em Nova Iorque em 1934, com receio do escândalo que as afirmações polémicas do autor sobre o colonialismo britânico , pudessem ter sobre a então jovem promessa das letras britânicas. Felizmente que não era homem para se preocupar com isso.

Burmese Days (ed. Penguin Classics, Londres, 2001, 300 páginas) conta-nos a história triste de um jovem colonialista inglês na Birmânia, demasiado ligado ao país para poder voltar à sua pátria, mas incapaz de se adaptar ao sistema colonial em vigor, apesar de passar os seus dias no Clube Europeu, onde não havia contacto com os "nativos", imigrantes indianos ou birmaneses de origem. Mal consigo, e mal com o seu país adoptivo, acaba por se apaixonar por uma recem chegada jovem inglesa à procura de marido, que após um breve romance o troca por outro, pelo que o infeliz acaba por se suicidar com um tiro no peito quando vê que o seu amor não é correspondido, e que a sua vida não tem mais sentido.

Orwell não consegue fugir da maldição de que acusa os seus compatriotas, porque as suas descrições da vida no Clube Europeu são muito mais vivas e felizes do que as imagens que nos tenta dar da vida da Birmânia dessa época, o que demonstra que os cinco anos que viveu como polícia na Birmânia, foram também eles anos de vida à europeia, talvez porque o fosso que o separava dos nativos era colossal e intransponível.

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sábado, setembro 30, 2006

Coisas do Douro


Conheço o Douro há cinquenta anos. A minha mãe era do Douro, assim como a sua família materna e paterna. Sou um apaixonado pelo Douro.

Adoro o clima, as vinhas em socalco, as curvas da estrada e as subidas impossíveis, as paisagens grandiosas, o cheiro a lagar, os matos, as perdizes a assobiar, a lama nos caminhos depois da chuva, o pôr do sol no rio. E como todos os apaixonados só lhe vejo as virtudes, nunca os defeitos.

Entre os muitos e muitos vinhos que provei esta semana numa visita guiada (por um amigo) a várias quintas do Douro, bebi um extraordinário vinho do Porto LBV 2001 da Quinta da Pacheca (uma novidade em vinhos do Porto porquanto só o fazem desde 2001, e pela mão da Maria Serpa Pimentel, um vinho cheio de espírito, e jovialidade), e bebi um não menos extraordinário monovarietal touriga nacional feito pelo Joaquim Morais Vaz, chamado de Quinta da Portela da Vilariça, ano de 2001, um nome que não ajuda a fixar, mas um vinho que coloco já entre os cinco maiores do Douro que alguma vez provei.

Fiquei a dormir na Quinta Nova de Nª Sª do Carmo, entre a Régua e o Pinhão, um Hotel Rural muito agradável e com um excelente serviço, pertencente ao Grupo Amorim. Acho o Hotel Vintage demasiado relais chateau para o Douro.

Um voto: que os vinhos do Douro saibam resistir à parkerização e uniformidade, ao excesso de madeira, aos blends com variedades importadas. São dos melhores vinhos do mundo, mas parece-me que há muita tentação de "modernices" pelo Douro.

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quinta-feira, julho 27, 2006

Mais e Sempre Açores








E depois como não ficar estasiado a beber um gin tónico no mais-que-famoso Café Sport da Horta?















E estar mesmo ao lado do legendário Cap. Eric Forsyth e do seu iate Fiona desta vez a caminho da Antártica, via Canárias, Cabo Verde, Brasil, e Argentina?















Que é melhor? Acordar em S. Jorge a ver o Pico?













Ou acordar no Pico a ver S. Jorge?

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Açores para Sempre


39º 05 ' N
028º 05' W


De volta à Ilha Graciosa, nos Açores, uma belíssima ilha de forma oval com 62 km2 de área, e 12,5 km de comprimento por 8,5 km de largura, temperatura da agua do mar nos 20º em Julho, e visibilidade de 30 metros, condições excepcionais para a prática do mergulho. Graças ao Rolando e à Tita que as coisas correm sobre rodas. É sempre um encanto voltar a ver os amigos, fazer mergulhos bem organizados e ser bem tratado. Pena é que as autoridades regionais estejam mais preocupados com o votos (dos pescadores) que com a receita proveniente de uma industria que nas Canárias faz viver milhares de pessoas entre barcos, restaurantes e hoteis, e que não haja a mínima preocupação com a protecção das espécies subaquáticas.

-"Precisavamos cá era de um Alberto João Jardim", - ouvi dizer por duas vezes. Indeed.


Nos mais de quarenta sítios de mergulho do Rolando, as chamadas baixas, recomendo os junto ao Ilhéu da Praia, em cima na foto. É uma Zona de Protecção Especial de Aves Selvagens com 12 hectares de área, onde se podem observar as cagarras ( Calonectris diomedea borealis) a rasar as ondas, sobretudo com mau tempo, e os garajaus (Sterna dougalli e S. hirundo) sempre a lutar e a fazer barulho por um peixe, e ainda os Alma-de-Mestre (Oceanodrama Castro) e os Frulhos (Puffinus assimilis baroli), todos nidificantes.

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